Gilmar Mendes chama conduta de Mendonça no Master de 'erro crasso'

Uma das maiores tensões recentes dentro do Supremo Tribunal Federal veio à tona nesta segunda-feira, 22 de junho de 2026. O ministro Gilmar Mendes, decano da Corte não poupou críticas ao colega André Mendonça, ministro relator. Em sessão que ecoou para além dos muros do Palácio da Justiça, Gilmar classificou a forma como o relator lidou com uma proposta de delação premiada ligada ao Caso Master como um "erro crasso" e uma grave "impropriedade".

O alvo das acusações foi o contato direto entre André Mendonça e os advogados de Daniel Vorcaro, ex-presidente da empresa Master e investigado por corrupção passiva. A questão central não é apenas o conteúdo da conversa, mas sim o procedimento: Gilmar argumenta que um juiz não deve ouvir diretamente da defesa detalhes sobre propostas de colaboração premiada, especialmente aquelas com caráter "seletivo", sem passar pelos canais formais do Ministério Público ou pela estrutura processual adequada.

A disputa pelo controle do inquérito

Aqui está o detalhe que complica ainda mais o cenário: essa briga técnica esconde uma batalha institucional. Com a substituição iminente na presidência da Segunda Turma, Luiz Fux assumirá o controle da pauta do Caso Master. Isso significa que Gilmar Mendes perderá a prerrogativa de definir as datas dos julgamentos, uma mudança significativa no equilíbrio de poder interno da Corte.

As divergências já são palpáveis. Durante um julgamento recente sobre a manutenção de prisões preventivas ligadas ao caso, a votação resultou em 3 votos a 1. Luiz Fux, Nunes Marques e André Mendonça votaram pela continuidade da prisão, enquanto Gilmar Mendes ficou vencido. Para o decano, o episódio representa um "grande vexame" para a imagem do Supremo, segundo registros de O Globo.

O que é uma delação 'seletiva'?

Para entender a gravidade da crítica, precisamos olhar para o direito penal brasileiro. Uma delação premiada, ou colaboração premiada, exige contraprestação concreta: informações verdadeiras que ajudem na elucidação do crime. Segundo relatos do Poder360, a defesa de Vorcaro teria proposto uma versão "seletiva" — ou seja, uma colaboração que beneficiaria apenas certos envolvidos, excluindo outros estrategicamente.

Gilmar Mendes enfatizou que, ao receber essa proposta diretamente dos advogados, Mendonça violou princípios básicos da imparcialidade e do contraditório. "Não poderia ter ouvido", disse o decano, sugerindo que tal atitude abre margem para acusações de parcialidade ou até nulidades futuras no processo. É uma advertência séria vinda do membro mais antigo da corte.

Reações e o entorno político

Naturalmente, o acampamento de André Mendonça reagiu. Aliados e assessores próximos ao relator interpretam as falas de Gilmar não como orientação jurídica, mas como um ataque coordenado. Em vídeos divulgados nas redes sociais, o entorno de Mendonça afirma que o objetivo do decano seria "descredibilizar o inquérito" e buscar brechas para anular atos praticados até agora.

É importante notar que André Mendonça já havia declarado publicamente que rejeitou a proposta de delação seletiva. Ele insiste que agiu com transparência e dentro da lei. No entanto, a percepção pública e política pode ser diferente da intenção jurídica. A tensão exposta nos bastidores do STF reflete um momento delicado para a instituição, que busca manter sua credibilidade enquanto lida com casos de alta complexidade midiática.

O impacto financeiro do esquema

Enquanto a batalha judicial acontece no topo do Judiciário, as operações policiais continuam no terreno. Na terça-feira seguinte às declarações de Gilmar, a Polícia Federal (PF) deflagrou uma nova ação contra um banco ligado a Edir Macedo, fundador da Universal. A operação bloqueou cerca de R$ 670 milhões, valor que ilustra a magnitude financeira do esquema conhecido como Master.

Esses números não são apenas estatísticas; eles representam o coração da acusação: desvio de verbas públicas através de contratos de publicidade. Cada milhão bloqueado reforça a necessidade de um julgamento justo e transparente, algo que ambos os lados do debate no STF afirmam defender, embora discordem fortemente sobre os meios.

O que esperar nos próximos meses?

Com Luiz Fux assumindo a presidência da Segunda Turma, o ritmo dos julgamentos pode mudar. Especialistas observam que Fux tende a priorizar a celeridade processual, o que pode acelerar decisões finais sobre prisões e recursos. Ao mesmo tempo, as críticas de Gilmar Mendes servem como um lembrete constante para todos os ministros: qualquer deslize procedural pode ser usado para questionar toda a legitimidade do processo.

O Caso Master continua sendo um termômetro da saúde institucional do Brasil. Enquanto isso, o STF tenta navegar entre pressões políticas, exigências jurídicas e a demanda social por justiça. O próximo passo será aguardar a nova dinâmica da Segunda Turma sob a liderança de Fux e ver como André Mendonça conduzirá o restante do inquérito sob escrutínio redobrado.

Perguntas Frequentes

Por que Gilmar Mendes criticou André Mendonça?

Gilmar Mendes criticou André Mendonça por considerar "impróprio" e um "erro crasso" o fato de o relator ter recebido diretamente dos advogados de Daniel Vorcaro uma proposta de delação premiada seletiva. Para Gilmar, isso viola protocolos processuais que devem evitar contatos diretos desse tipo entre juízes e defesas sem mediação formal.

O que é o Caso Master?

O Caso Master é um inquérito no STF que investiga supostos desvios de verbas públicas em contratos de publicidade entre o governo federal e empresas ligadas à Igreja Universal do Reino de Deus, incluindo a Master. Envolve figuras proeminentes como Edir Macedo e Daniel Vorcaro, com alegações de corrupção passiva e formação de quadrilha.

Quem assume o controle da pauta do Caso Master?

O ministro Luiz Fux assumirá a presidência da Segunda Turma do STF, substituindo Gilmar Mendes nessa função. Com essa mudança, Fux terá o controle sobre a marcação das datas de julgamentos relacionados ao Caso Master, alterando a dinâmica interna da corte nesse inquérito específico.

Qual foi o resultado da votação sobre as prisões?

Em um julgamento recente, a manutenção das prisões preventivas ligadas ao caso foi decidida por 3 votos a 1. Os ministros Luiz Fux, Nunes Marques e André Mendonça votaram a favor da prisão, enquanto Gilmar Mendes votou contra, ficando vencido nessa decisão específica.

Quanto dinheiro foi bloqueado pela PF recentemente?

A Polícia Federal bloqueou aproximadamente R$ 670 milhões durante uma operação contra um banco ligado a Edir Macedo. Essa ação faz parte das investigações paralelas ao esquema Master e demonstra o volume financeiro envolvido nas acusações de desvio de recursos públicos.