Campos Neto diz que há espaço para corte de juros no Brasil em breve, mas exige reforma fiscal

Em um dos momentos mais aguardados do LIDE Brasil França Fórum Paris, o ex-presidente do Banco Central do Brasil (BC), Roberto Campos Neto, soltou uma bomba sutil, mas poderosa: há espaço para um corte da Selic em um futuro próximo. Não foi uma promessa, nem uma previsão definitiva. Foi um sinal — o tipo de sinal que investidores e empresários escutam com os ouvidos bem abertos. "A gente acredita que em algum momento vai abrir espaço. Algum momento no futuro recente, no futuro próximo, vai abrir espaço para uma queda de juros", disse ele, diante de uma plateia de CEOs franceses e brasileiros que buscam entender o rumo da economia mais promissora da América Latina.

Um juro de dígito? Só com choque fiscal

Mas Campos Neto não veio só para animar. Ele trouxe a realidade de volta. "Para ter uma queda de juros que faça diferença em termos de produtividade e de planejamento de longo prazo, a gente precisaria ter um juro no Brasil de um dígito. E para ter um juro no Brasil de um dígito, a gente vai precisar trabalhar fortemente em um choque positivo na área fiscal." A frase ecoou como um alerta. O Brasil não pode simplesmente cortar juros como se fosse um interruptor. O custo de financiamento do governo — que consome quase 40% da receita federal — é o grande empecilho. Sem reduzir o déficit, qualquer queda da Selic será efêmera, e a inflação voltará como um boomerang.

Ele elogiou a gestão atual do BC, chefiada por Gabriel Galípolo, dizendo que "faria as mesmas coisas que ele está fazendo neste momento". Um gesto raro de transição pacífica entre dois presidentes de bancos centrais de diferentes governos — e que, por isso, ganha peso político. Mas mesmo assim, Campos Neto não escondeu preocupações. A inflação, embora "melhorando na margem", ainda está "bem acima da meta oficial" de 3%, com teto de 4,5%. E isso é crítico: o IPCA de setembro e o IPCA-15 de outubro vieram abaixo do esperado, mas ainda assim, o mercado não confia plenamente.

Os números que não mentem

Na quarta-feira, 5 de novembro de 2025, o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a taxa Selic em 15% ao ano — o maior nível em quase duas décadas. A decisão foi tecnicamente justificada pela necessidade de manter o controle inflacionário, mas o mercado já começa a descontar uma mudança. O relatório "Brasil Visão Macro" do BTG, divulgado em 17 de outubro, revisou as projeções de inflação para 2025 de 4,8% para 4,6%, mantendo 4,2% para 2026. A Focus, ferramenta do BC que reúne previsões de economistas, aponta 4,56% para este ano — colando no limite superior da meta.

O economista Almeida, autor do relatório, foi direto: "A confirmação da desaceleração da atividade e a revisão do cenário de inflação para menos reforça nosso call de início do corte da taxa Selic em janeiro." Ou seja: se os dados de dezembro e janeiro confirmarem a tendência, o BC pode começar a cortar juros no início do próximo ano. Mas há um obstáculo: o comunicado do Copom ainda sinaliza que a taxa de 15% será mantida na reunião de 10 de dezembro — a chamada "superquarta", quando o BC do Brasil e o Federal Reserve anunciam decisões simultaneamente.

Desemprego baixo, inflação no olho do furacão

Desemprego baixo, inflação no olho do furacão

Aqui está o paradoxo brasileiro: o desemprego está "muito baixo", segundo Campos Neto. Mas isso gera risco. Por quê? Porque um mercado de trabalho apertado pressiona salários — e salários mais altos, em um país com alta carga tributária e baixa produtividade, viram inflação. Ele citou o grande esquema de transferências de renda, que não foi ajustado desde a pandemia. "Como o mundo está muito mais endividado, temos por consequência um grande aumento dos impostos, que estão concentrados em capital." A frase é uma crítica indireta ao modelo tributário brasileiro, que pune quem investe e produz, em vez de cobrar quem consome ou detém riqueza.

Isso explica por que o Fed já cortou juros duas vezes em 2025 — e pode cortar mais. Enquanto os EUA têm uma economia mais flexível, com inflação controlada e crescimento sustentável, o Brasil ainda caminha com um pé no passado: altos juros para segurar inflação, mas sem reformas que permitam uma queda duradoura. O BC brasileiro está no papel de um médico que cura a febre, mas não trata a infecção.

Política ou economia? A narrativa que divide

Campos Neto também mencionou a "narrativa política" sobre os juros. E ele sabe do que fala. Em junho, quando a Selic subiu para 15%, a ex-ministra Gleisi Haddad chamou a decisão de "incompreensível". Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia dito, meses antes, que confiava que o BC tomaria a "atitude correta" e baixaria os juros. A pressão política, mesmo que sutil, existe. E ela pesa. Mas Campos Neto, que foi nomeado por Bolsonaro e agora elogia Galípolo, aparentemente não se deixa levar por isso. "Não faria nenhum reparo à conduta da atual diretoria", disse ele em Londres, antes de vir a Paris.

O que vem a seguir

O que vem a seguir

A decisão de 10 de dezembro será o termômetro. Se o Copom mantiver a Selic em 15%, o mercado entenderá que o BC ainda tem medo da inflação. Se, por outro lado, houver sinalização de mudança — mesmo que apenas na linguagem —, o mercado pode antecipar cortes para fevereiro ou março. O que está em jogo? Não é só o preço do crédito. É o futuro do investimento produtivo, da indústria, da construção civil e das pequenas empresas que ainda não se recuperaram da estagnação dos últimos anos.

Na França, Campos Neto falou como um técnico. Mas no Brasil, ele está sendo ouvido como um político. Porque, no fim, a política monetária nunca é só técnica. É sempre sobre confiança — e confiança, aqui, ainda está frágil.

Frequently Asked Questions

Por que o Banco Central ainda não cortou os juros mesmo com a inflação caindo?

Apesar da inflação estar abaixo das expectativas, o BC mantém a Selic em 15% porque ainda está acima da meta de 3% (com teto de 4,5%). Além disso, a inflação de serviços e os salários, impulsionados por programas de transferência de renda, ainda geram pressão. O BC quer certeza de que a queda é sustentável, não temporária — e isso exige mais dados, especialmente após a surpresa positiva do IPCA de setembro.

O que significa um "choque positivo na área fiscal"?

Significa reduzir drasticamente o déficit público, especialmente os gastos primários, e reformar o sistema tributário para torná-lo mais eficiente e menos oneroso para a produção. Atualmente, o governo gasta quase 40% da receita com juros da dívida. Sem cortar esse peso, qualquer queda da Selic será anulada pela inflação futura. Um choque fiscal poderia vir de reformas como a tributária, a previdenciária ou até a redução de subsídios ineficientes.

Por que o Federal Reserve cortou juros e o BC brasileiro não?

Os EUA têm inflação mais controlada, uma economia mais produtiva e menos dependência de juros altos para atrair capital estrangeiro. O Brasil, por outro lado, ainda depende de juros elevados para manter o câmbio estável e atrair investimentos de curto prazo. Além disso, o déficit fiscal brasileiro é muito maior — o que torna o BC mais cauteloso. O Fed pode cortar; o BC brasileiro precisa esperar reformas.

Qual é a probabilidade de corte da Selic em janeiro de 2026?

Segundo o BTG e a Focus, há cerca de 60% de chance de início do ciclo de cortes em janeiro, desde que os dados de dezembro (IPCA, PIB e indicadores de atividade) confirmem a desaceleração. O grande fator de risco é o comportamento dos preços de serviços e a inflação de salários. Se esses indicadores subirem, o BC pode adiar o corte para fevereiro ou março.

Como isso afeta o bolso do cidadão comum?

Se os juros caírem, empréstimos, cartão de crédito e financiamentos ficam mais baratos — mas isso leva meses para chegar ao consumidor. O impacto mais imediato é no mercado de trabalho: juros mais baixos estimulam investimentos, o que gera empregos. Por outro lado, se a inflação voltar, os preços sobem e o poder de compra some. O equilíbrio é delicado.

O que Roberto Campos Neto tem a ver com a decisão atual do BC?

Apesar de não estar mais no cargo, Campos Neto é uma referência de credibilidade. Sua avaliação da gestão de Galípolo como "correta" reforça a independência do BC. Mas sua advertência sobre a necessidade de reforma fiscal serve como um alerta: sem mudanças estruturais, até os melhores gestores não conseguem manter juros baixos por muito tempo. Ele é o fantasma que ainda assombra as decisões do BC.